ENTREVISTA – ALCIENE RIBEIRO LEITE

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Progresso de leitura

Viúva após um casamento de 57 anos, ALCIENE RIBEIRO LEITE é mãe de três filhos.

Natural de Ituiutaba (MG), reside em Belo Horizonte. Formada em História (licenciatura plena), é escritora de profissão – e premiada. Entre seus mais de 20 títulos de Alciene no mercado incluem-se livros espíritas autorais (não psicografados), romances, obras infantis, além de várias antologias de contos.

Pela Editora EME ela está lançando Você precisa de respostas – manual de espiritualidade. E é sobre este livro que ela nos fala, na entrevista a seguir. Confira:

Como conheceu o espiritismo?

Prefiro a forma reconheci. Com nata intuição a respeito das múltiplas vidas, fui criada segundo os dogmas do catolicismo. Na juventude, sem respostas racionais a questionamentos e inquietudes quanto ao eu, à vida, e ao sentido do existir, afastei-me da igreja. Meio perdida, um amigo emprestou-me Nosso Lar (André Luiz/Chico Xavier). Eu o lia quase em transe, e pensava a cada parágrafo: É isso que eu quero, essa dinâmica pós-morte! Em secreto, e temendo excomunhão do Vaticano, imaginava que fitar a face de Deus pela eternidade, mais cedo ou mais tarde redundaria em monótono descanso. E o convite chegou por meio de um obsessor, com dores, naturalmente. Procurei líder no movimento espírita, e ela: Você mudou o jeito de escrever? Diante da intrigada interlocutora, carente de apoio, não de crítica literária, emendou: Os espíritos me dizem que você vai escrever, também, para ajudar pessoas. – Nada lhe dissera da carta de teor espírita escrita na véspera a alguém em crise. E aqui estou no ABC da solidariedade, 31 anos depois.

Frequenta ou trabalha em instituições espíritas? Como se chamam? Qual atividade desenvolve?

Na capital mineira sou voluntária de um grupo de mulheres sediado na União Espírita Mineira. Na área de assistência social atendemos gestantes carentes. Atuo na condição de passista, e de médium psicofônica, enquanto o desenvolvimento de psicografia foi suspenso por questões internas. Também participo de culto na Livraria Espírita Novos Rumos. Nas idas à minha cidade exerço a mediunidade na Fraternidade Espírita Cristã, colaboro nas atividades de Sopa Fraterna e no Culto do Evangelho com os comensais. Aos domingos, no Sanatório Espírita José Dias Machado, bato ponto no culto dirigido pelo Presidente da instituição, o médium psicógrafo, Antônio Baduy Filho. As quartas, na Creche Espírita Josefina de Magalhães.

Qual a importância do espiritismo em sua vida?

É simples, e é tudo. O espiritismo me livrou de estacionar, uma vida inteira, no quesito evolução. E também me libertou da ilusão e do comodismo, do materialismo e tantos outros ismos que nos travam o passo rumo ao progresso.

Qual a principal motivação para escrever Você precisa de respostas – manual de espiritualidade?

Eu gostaria de ter tido acesso a alguma obra parecida para aplacar o susto do despertar, foi exatamente isso, um susto interrogativo: Como não vi o óbvio?! É que nasci espírita, foi encontro comigo mesma. Respondendo: Considero o manual útil por alertar o novato sobre os escolhos típicos dessa fase. Se o principiante espírita, ou não, se beneficiar de algum modo, obrigada, meu Deus, por ele vir a lume!

O que deseja transmitir ao leitor com essa obra?

Primeiro, o conforto da acolhida à fé e, mais ainda, à Instituição Espírita. Quero que ele se sinta igual na sua residência, seguro e confiante, livre de equívocos recorrentes: o de associar a Casa Espírita a aparições e a ranger de dentes, a trabalhos e a consultório sentimental, a rituais e a prosperidade material. Acaso a obra o liberte de superstições, motive ao estudo, à pesquisa, e ao esforço por reforma íntima, me resta louvar a Deus. Na sequência, a natural adesão ao respeito e à solidariedade, senão engajamento às tarefas doutrinárias.

O que os leitores encontrarão nas páginas de Você precisa de respostas – manual de espiritualidade? Faça uma resenha sobre a obra.

Com raras exceções o neófito em espiritismo experimenta um tipo de ebulição interior capaz de constrangê-lo na vida de relação. A obra reúne apontamentos úteis ao momento, e visa preservá-lo.  Ensina a doutrina espírita que o roteiro de vida é planejado no mundo espiritual antes de a criatura renascer. Entretanto, geralmente a via que desemboca nos compromissos confunde-se a outras numa espécie de trevo rodoviário. Embora sempre ali, é acidentada e ocupa ângulo discreto, pouco sinalizado, reclamando olhos de ver. O calouro viu, e envereda por ela, entre maravilhado e pesaroso. Primeiro porque, agora, tem ouvidos de ouvir; segundo, por hesitar demasiado quanto à estrada a tomar. E é ela que traduz o desconforto desde que pôde raciocinar: Quem sou eu? Agora sabe (ou julga saber). O que faço aqui? Começa a entender. Para onde vou? Sente urgência de conhecer detalhes desse fatal destino. E mais: de convencer parentes e amigos a desbravar o horizonte fantástico, sobrenatural. Carece-lhe meditar Kardec: A natureza ainda não disse a última palavra. Tampouco refletiu sobre a crística prescrição: Não vades ter com os gentios. Nesse ponto o fenômeno sobreleva e essência moral da doutrina. E simultâneos à pressa de aumentar prosélitos, o desagrado alheio e a pecha de fanático. Assim, a louvável intenção acaba prestando desserviço ao espiritismo. Enfim, Você precisa de respostas resulta de anotações, de uma perplexa recém-convidada, sobre temas abordados em reuniões públicas doutrinárias na União Espírita Mineira. E pretende, além do citado, situar o calouro nas primeiras séries já frequentadas por veteranos do infindável curso evolutivo.

Qual a importância de tratar assuntos cotidianos tendo como base os ensinamentos espíritas?

Entendo que os postulados espíritas, aplicados à vida prática, são arrimo seguro aos passos vacilantes da trajetória terrena. Essa postura acende uma luz no fim do túnel de um cotidiano em que pontificam conflitos e contradições. Entendidos os quês e porquês da alegria e tristeza, da saúde e doença, da abundância e escassez no cenário contemporâneo, damos boas vindas à serenidade, enfim.

Como você analisa a evolução do conhecimento espírita nos dias de hoje?

Ideias ou sistemas racionais se solidificam, enquanto meias-verdades, às vezes espetaculosas, finam-se em si mesmas. Sem alarde as primeiras arrebanham seguidores e/ou apoiadores nos diversos campos do saber. O homem é impulsionado instintivamente ao conhecimento. Uma doutrina científica, filosófica e moral igual a espírita o atende em ao menos um de seu tríplice aspecto. O pesquisador abraça a ciência, e tenta dissecar o todo em laboratório; o pensador, a face filosófica e indaga incansável, de si para consigo, procurando respostas ao grande enigma existencial; já o homem comum, ansioso por comungar com o Ser Supremo que a razão lhe diz a tudo governar, se apropria da moral religiosa. Porém, vasta parcela nega se frustrar na especialização-funil; ela subestima aqueles tocados pelo anseio do transcendente. E a compreensão inerente ao espiritismo, na sua feição de fé raciocinada, multiplica prosélitos na proporção em que a informação se expande também às academias. Hoje a doutrina espírita é estudada em Universidades, e focalizada pelas diversas mídias às vezes distorcida, mas polariza atenções. Outro fator que atua nessa evolução expansionista é a carência de um povo, na transição de eras de provas e expiações, a um futuro regenerado. Essa dor milenar aponta-lhe a doutrina consoladora por excelência.

Qual a importância de pensarmos filosoficamente sobre nossas vidas?

O próprio movimento, no sentido de dilatar a compreensão do existir, já se traduz em ganho para o espírito imortal. Se a meta evolutiva é a perfeição na sua face do amor e do saber, a realidade entendida leva ao rés do pódio. Longo caminho desde a posse do sujeito à condição de ser pensante, crítico e reflexivo. Mal cogitamos da natureza do inconsciente, esse oculto lado iceberg da consciência, arquivo mnemônico de tempo medido em milhar: uma incógnita sob o frio olhar do materialismo. Como então apreender o todo da essência individual que se manifesta em vida plena pelos  confins indevassáveis da Criação? O que é vida à limitada percepção das criaturas? Explosão de energia em perene transformação de unicelular a magníficos corpos talhados a abstrato cinzel?, me digam. Afirma-se que o princípio vital vibra no mineral, dorme no vegetal, agita-se no animal, desperta no homem… E prossegue em angelitude. Ele foi analisado, e a composição química explicada? Aí a importância, senão urgência, de pensar, questionar, refletir à luz da razão, e ampliar limites da realidade. Com essa ferramenta pode-se concluir: Algo muito superior rege esta orquestra em que vige plenitude harmônica. Uma Inteligência Maior, criadora de todas as coisas do Universo conhecido e desconhecido, mas pressentido e igualmente Sua criação. Supremo consolo: Ela nos ama!

Você considera que o livro espírita é ainda um grande fator de divulgação doutrinária?

Óbvio que sim. Vejo pessoas de outros credos, indiferentes e ateus lendo livros espíritas, de preferência romances. Nesse momento os move válida curiosidade; e das histórias ingênuas com o protagonismo da reencarnação despida do fundo doutrinário, focam publicações de conteúdos mais substanciais. Frequentemente esbarram nos clássicos de Emmanuel/Chico Xavier, e daí ao interesse concreto pelo espiritismo.

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Do alto dos cabelos brancos tintos de ruivo peço licença para lembretes corriqueiros: Fora da caridade não há salvação. Então, caridade conosco mesmos: Cultivemos gratidão e otimismo, condição à saúde integral.  Corpo: instrumento de aprendizado terreno, cuidado com ele. Invistamos mais no SER do que no TER. Sabemos, a Terra dista de colônia de férias, o trabalho é bênção, e a dificuldade, lição. A gente se fortalece a cada obstáculo vencido. Amemos a vida, não nos culpemos por enganos que acaso nos arranharam. Não repeti-los, sim, protelar o curativo, não: gera cobrança, juros e correção monetária. Creio ser de Emmanuel o enunciado: Tudo posso, mas nem tudo me convém. Se fizermos, seremos responsáveis pela repercussão do feito. Por fim, uma receita que nunca desanda: Estamos onde, como e com quem precisamos estar a fim de nos harmonizarmos à Lei de Deus. Ouçamos a voz interior, desculpemos sempre, façamos o melhor, e prossigamos no caminho da verdade e da vida.